Luizão: uma vida dedicada a Romaria dos Cavaleiros de Santo Amaro

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Luiz Antônio da Silva Araújo foi defensor das tradições santamarenses e mantenedor da Romaria dos Cavaleiros do Senhor Bom Jesus de Pirapora por quase 40 anos

Por Karina da Silva Araújo


Luiz Antônio da Silva Araújo, o Luizão dos Cavalos

Luiz Antônio da Silva Araújo, também conhecido pela alcunha de Luizão dos Cavalos, ou simplesmente, Luizão, caçula de 11 irmãos, nasceu na região de Interlagos em 11 de abril de 1944. Figura lendária em Santo Amaro, um homenzarrão de quase dois metros de altura, postura altiva, bigode grosso, cabelos fartos e a cabeça sempre coberta por um chapéu de palha, era uma figura folclórica. Desde tenra idade, mostrou grande habilidade no manejo de cavalos e mulas.

Aos 6 anos, participou da sua primeira romaria, a partir da qual nunca mais deixou de frequentar, mesmo que, muitas vezes, montado em cavalos magros, de qualidades questionáveis, conhecidos no meio hípico por matungos. No início da década de 70, junto com dois irmãos, fundou a Escola de Equitação Santa Fé, localizada no terreno onde hoje se encontra o Colégio Humboldt.

Já na década de 80, transferiu-se para a região do Riviera, onde fundou o Recanto dos Cavaleiros, que rapidamente tornou-se uma referência hípica da região e atualmente é administrada com maestria pelas suas filhas Karina e Vanessa. Dono de um gênio, digamos peculiar, tipo de pessoa que se gosta ou não, sincero e contundente, por vezes grosseiro, entendia como ninguém de cavalos, burros e mulas. Sua alma de tropeiro introduziu um sem número de adultos e crianças no mundo dos cavalos.

Apesar de seu pouco estudo, era um entusiasta da área, autodidata nato e com sagacidade obteve seu conhecimento por meio da simples observação. Falava pouco e observava muito os grandes cavaleiros, conhecidos no meio hípico como ginetes, e assim, foi aprimorando suas habilidades de cavaleiro. Ferrenho defensor das tradições santamarenses, foi mantenedor da Romaria dos Cavaleiros do Senhor Bom Jesus de Pirapora por quase 40 anos.

A aguardada comemoração ocorria no final de semana anterior a saída da romaria. Habitualmente, iniciava-se com uma cavalgada que reunia um sem número de romeiros e cavaleiros do entorno do bairro, cuja finalidade era chamar a atenção das pessoas e assim, divulgar a romaria. Na sequência, ocorria a Festa de Cavaleiros propriamente dita, caracterizada por uma extensa programação de provas hípicas em diversas categorias: Salto, Tambor, Marcha; e os mais esperados do evento: Máquina Quente, Rainha da Festa e Cavaleiros do Futuro; competições entre cavaleiros, respectivamente categorizadas entre homens, mulheres e crianças, onde a partir de um desfile, o povo presente escolhia os ganhadores baseado no conjunto beleza e elegância do cavalo/cavaleiros através de aplausos.

Cumpre ressaltar que, antigamente, as refeições da romaria eram feitas a partir de um lanche comunitário, onde cada romeiro trazia um prato. Luizão passou a patrocinar um farto churrasco regado a cerveja, que perdura tradicionalmente até os dias de hoje. Piromaníaco desde a infância, fazia uma queima de fogos de artifícios de encher os olhos, ansiosamente, aguardada por todos os santamarenses. Transferiu às suas filhas, Karina e Vanessa, a paixão e a habilidade com os cavalos e muares, bem como o respeito e o amor a romaria como a mais genuína tradição de Santo Amaro.

Legou a ambas a devoção a Bom Jesus, e assim, solidificou a fé em suas sucessoras, e naturalmente, transmitiu as irmãs Silva Araújo a responsabilidade de se manter a romaria viva na sua ausência, a despeito dos inúmeros e antigos comentários maldosos e invejosos que insistem em plantar estórias mentirosas sobre o fim da romaria ao se completar o centenário. Um recado aos fofoqueiros de plantão, desejosos do fim da romaria: estamos mais fortes e determinados do que nunca e prestes a abrir e começar a escrever um novo século de existência.

Ensinou às filhas que romaria não é cavalgada de amigos e muito menos lazer, mas um evento da maior seriedade, um ato de fé, tradição e peregrinação. Apaixonado por muares, os manejava com habilidade invejável, rebengue de três argolas na cintura, espora de roseta, camisa aberta com um nó na ponta, sempre montando em belos e fortes animais, muito bem traiados, sempre num arreio do tipo cutiano com pelego de ovelha e baldrama decoradas com várias margaridas de alpaca. Vários foram seus animais, no entanto, nenhum mais famoso do que o Goiano, também conhecido como Burro Preto, dono de uma marcha troteada, que dominava as atenções na Alameda Santo Amaro durante as saídas das romarias pelo seu belo porte.

Em 2011, deitado em sua sela como travesseiro e o pelego como colchão, adormeceu nos braços do Bom Jesus de Pirapora. Sua alma de tropeiro liberta, cavalga livre em outras pastagens na companhia de outros grandes romeiros do passado.


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