Inteligência Artificial em sala de aula: ameaça ou aliada?

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Uso da nova tecnologia já faz parte da agenda de alunos e professores do Colégio Porto Seguro, pioneiro em letramento digital


Poucos temas passaram de mera especulação ao uso cotidiano em tão pouco tempo. Tratada como “realidade longínqua” e “coisa de nerd” há pouco mais de um ano, a Inteligência Artificial (ou IA) já está entre nós, sendo aplicada de transações bancárias à assistentes de vozes domésticas. Odiada e idolatrada na mesma medida, a IA ganhou espaço nas discussões e atividades em sala de aula, com estudantes de várias faixas etárias começando a incorporar a nova tecnologia à rotina escolar. Para especialistas do Colégio Visconde de Porto Seguro, em São Paulo, pioneiro em letramento digital no currículo, evitar ou impedir a utilização é uma batalha inútil e fadada ao fracasso.

Ter máquinas desenvolvendo tarefas de maneira autônoma sempre foi um desejo de cientistas e entusiastas, mas os estudos só ganharam força a partir dos anos 1950 do século passado, quando o termo “Inteligência Artificial” foi mencionado pela primeira vez por Alan Turing (1912 – 1954), matemático e cientista considerado pai da computação moderna. Até então os avanços se deram de forma mais incremental, aperfeiçoando tecnologias desenvolvidas ao longo do tempo. Mas nenhuma delas chamou tanto a atenção quando o chatbot (programa de computador que tenta simular um ser humano na conversação com as pessoas) de inteligência artificial online desenvolvido por uma empresa americana em 2022. O Chat GPT impressionou cientistas, empresários, educadores e jornalistas ao redor do mundo pela simplicidade da interface, a facilidade do uso e a qualidade das respostas.

Em tempos onde a tecnologia é introduzida no repertório desde a tenra infância, é natural que crianças e adolescentes também se entusiasmem com a novidade. A exemplo do que foi visto com a introdução da calculadora e da internet, a IA tornou-se uma espécie de aliada de estudantes em todo o mundo e nas mais diversas idades, nem sempre com o consentimento de pais e professores, vale ressaltar. Para a professora e pesquisadora Joice Lopes Leite, que é diretora de Educação Digital do Colégio Visconde de Porto Seguro e Mestre em Educação, Currículo e Novas Tecnologias, é preciso conhecer os aspectos positivos e negativos da tecnologia e buscar tirar o máximo proveito do que pode ser agregado à formação dos alunos.

“Quando o assunto tomou os noticiários no ano passado, muitos professores, pais e alunos questionaram se a ferramenta poderia ser usada em sala de aula, se não iria comprometer o aprendizado, substituir profissionais e outras questões muito relevantes. A nossa postura foi de serenidade, de investigar melhor e aprender com a nova tecnologia”, conta Joice. A mudança não foi brusca, apesar da velocidade. Colégio experiente no uso de novas tecnologias aplicadas ao ensino e aprendizagem, o Porto foi a primeira escola a oferecer aulas semanais de letramento digital no período regular, que contam com professores especialistas e o uso de Lego, tablets, componentes eletrônicos, ensino de programação, lousas eletrônicas e diversos recursos digitais. Conforme avançam, alunos de todas as séries aprendem a programar e são atualizados constantemente acompanhando as mais diversas inovações digitais. “No começo do ano, realizamos uma pesquisa interna com 682 professores de Ensino Fundamental e Médio e 99% disseram concordar com o uso da IA e 97% não proibiu o uso pelos alunos”, detalha a diretora.

A decisão do colégio foi incorporar o tema ao currículo de Letramento Digital e preparar os alunos para lidar com a ferramenta em seus projetos, pesquisas e atividades complementares, sempre com a orientação dos professores. “Precisamos mais do que nunca dos professores para fazer a orientação crítica dos alunos, para dar a ponderação sobre temas tão sensíveis e isso é uma habilidade humana, não do robô”, afirma Joice, categórica.

Saber o que e como perguntar ao Chat GPT, por exemplo, pode garantir resultados melhores e mais contextualizados, garante a própria empresa desenvolvedora no seu blog. Tarefa similar à dos professores frente aos questionamentos éticos envolvidos no uso do chatbot em tarefas escolares. “O professor acompanha o dia a dia e sabe bem o potencial e a entrega de cada aluno. Se ele percebe alguma produção que diverge do usual, busca o aluno e conversa”, explica a diretora. Segundo ela, na grande maioria dos casos em que o uso da IA transcende a barreira ética, o aluno assume a postura e corrige o comportamento. Os professores também seguem essa linha. Muitos relatam utilizar o chat GPT na busca de referências acadêmicas e na elaboração de questões para atividades em sala, respeitando as questões autorais e éticas.

Desinfopédia – Desde antes do crescimento da polêmica sobre a Inteligência Artificial, mas bem próximo dela, especificamente no uso de algoritmos e codificação, os estudantes do Ensino Médio do Porto Seguro, João Pedro Sandre e Pietro Andrade Quinzani, de 17 anos, criaram uma plataforma de checagem de notícias falsas, as fakenews. Sob orientação do professor Francisco Tupy, a ideia surgiu há dois anos como resultado de um trabalho em sala de aula sobre o ceticismo em torno da vacina contra a COVID-19. A dificuldade de confirmar as informações que recebiam sobre o tema na época levou os jovens a desenvolver uma plataforma de checagem de notícias. Batizada “Desinfopédia”, uma alusão ao vasto material de desinformação na Internet, reúne mais de 1.300 notícias falsas tabeladas e datadas de três importantes checadores de fato diferentes.

A “Desinfopédia” ficou em 2° lugar, em 2022, na categoria ciências sociais, na Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace), programa de talentos em ciências e engenharia que estimula a cultura científica, o saber investigativo, a inovação e o empreendedorismo em jovens e educadores da educação básica do Brasil. Os americanos também premiaram o projeto. Neste ano, a plataforma ficou em 4° lugar na International Science and Engineering Fair (Isef), a maior feira internacional de pesquisas científicas da educação básica, realizada todos os anos no Estados Unidos.

Hoje as notícias são restritas ao Brasil, mas os criadores esperam ir além: “Estamos trabalhando para, um dia, a plataforma ser global, com a organização de conteúdos de serviços estrangeiros de checagem. E estamos analisando as possibilidades de usar Inteligência Artificial”, garante Pietro.

Mesmo diante de tantos e tão rápidos avanços tecnológicos chegando às salas de aula, uma peça desse tabuleiro está longe de mudar na visão da educadora: “O robô tem muitas especialidades de agilidade, de conectar palavras, algoritmos, números, dados e uma série de coisas que ele consegue articular muito mais do que a capacidade humana tem compreensão e consegue fazer. Entretanto, na hora de fazer essa mediação de processo criativo, quem tem que fazer somos nós humanos”, finaliza Joice Leite.


SUGESTÕES DE PAUTA: reportagem@gruposulnews.com.br

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