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quinta-feira, 30 junho, 2022
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    Centenário da Semana de Arte Moderna: Qual sua influência cultural 100 anos depois?

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    Evento foi um marco na “abrasileiração” artística. Foi como uma reivindicação de artistas contra as influências estrangeiras na arte e na criação das raízes culturais nacionais em meio a urbanização de São Paulo


    No dia 13 de fevereiro de 1922 deu-se início ao movimento que mudaria para sempre os rumos do conceito de ‘fazer arte’ no Brasil. A Semana de Arte Moderna, que teve o icônico Theatro Municipal de São Paulo como sede deixou como legado, até hoje, a apresentação das ‘brasilidades’ nas artes exportas em território nacional desde então.

    Para entender melhor, é preciso entender o que era o Brasil (e São Paulo) no início da década de 20… Era o início da urbanização, a revolução industrial transformando do êxodo rural uma realidade no Estado de SP.

    Até por volta de 1870, a cidade de São Paulo não era a metrópole que é hoje, havia cerca de 31 mil habitantes, muito menos do que a então capital do Brasil, Rio de Janeiro, com incríveis 274 mil habitantes. O que tornou a cidade uma grande atração de empreendimentos e imigrações foram os investimentos em ferrovias até o Porto de Santos para levar toda a produção de café, onde para ir do Interior ao Navio, e passava, estrategicamente, pela capital Paulista, para descer a Serra.

    As ferrovias fizeram com que muitos barões, donos de terras e de produções de café se instalassem em São Paulo. Além disso, com a abolição da escravidão, os donos de terras buscaram como solução de mão de obra a busca por imigrantes estrangeiros. Mas por ser um trabalho muito pesado nos campos, muitos imigrantes decidiram sair do Interior e povoar a ‘nova metrópole’. Estima-se que 2.264.214 imigrantes passaram a morar na capital paulista entre 1885 e 1914, povoados, principalmente, por italianos, portugueses, espanhóis e japoneses.

    Também era o início da industrialização, construindo fábricas, principalmente na região do Brás, onde passava a linha ferroviária Santos-Jundiaí, tendo como principal setor a indústria têxtil.

    Precisa levar em consideração que o Brasil foi criado como uma Colônia de outro país e que foi “descoberto” muito tarde, em 1500, considerando a história dos países europeus e, os países às margens do “Mar Mediterrâneo”, onde são povos milenares, bíblicos e de outras religiões.

    Portanto, o Brasil não tem uma cultura base, falando artisticamente, como um período Renascentista, ou tradições culturais, como em Paris, na França, onde a elite do Rio de Janeiro copiava descaradamente tudo o que a elite parisiense (elite da capital da França) fazia, em um movimento conhecido como “belle epoqué”. Outro exemplo é o próprio Theatro Municipal de São Paulo, que foi construído como um desejo orgulhoso da elite paulistana, completamente inspirado nas casas de espetáculos europeus (principalmente parisienses) para realização de óperas, até então o principal espetáculo europeu da época.

    Agora que você entendeu como era São Paulo no início da década de 20, devemos considerar que toda a multicultura que a cidade tem nos dias de hoje é diretamente influenciado por todos os imigrantes que chegaram, como as tradições italianas no bairro do Bexiga e Mooca, por exemplo, além da grande influencia nordestina em solos paulistanos.

    E assim é também o nosso conceito de arte e cultura atualmente, a Semana de Arte Moderna de 1922 foi o marco zero para a caracterização da propagação da “cultura tipicamente brasileira”, criado de brasileiros para brasileiros, usando e abusando da cultura dos povos ‘originários’ de nossa nação.

    A ideia da Semana de 22 foi trazer à tona uma nova visão artística, através de palestras, peças musicais, exposição de obras de arte, entre outros. Oswald de Andrade teve um papel muito importante ao trazer técnicas brasileiras em combate com as “técnicas estrangeiras” de arte.

    Foi então, registrando o Brasil como é, com culturas de grupos étnicos que representam o Brasil, como a forte descendência afro no país, mostrando suas cores e formas do jeito que são.

    Alguns artistas usaram a Semana de 22 como uma reivindicação da arte ensinada nas principais escolas do país, com o parnasianismo, movimento literário surgido na França, conceito artístico voltado a oposição do realismo e naturalismo, ou seja, textos literários e de conteúdos que pregavam a criação da “poesia perfeita”, valorizando o positivismo e a ciência, criando a linguagem objetiva e direta. O Parnasianismo no Brasil durou até a Semana de 22.

    Dentre os artistas participantes, se destacam: os escritores Mário de Andrade; Oswald de Andrade, Menotti del Picchia e Graça Aranha. Nas artes plásticas Di Cavalcanti e Anita Malfatti roubaram a cena. Junto aos músicos Heitor Villa-Lobos e Guiomar Novaes. Embora Tarsila do Amaral seja uma artista muito icônica ao lembrar da Semana de 22, ela não estava presente durante o evento.

    Dentre as obras expostas, os grandes destaques são uma palestra de Graça Aranha, intitulado “A emoção estética da arte moderna”, o poema “Os Sapos”, de Manuel Bandeira, além de obras como “A Mulher de Cabelos Verdes”, “O Homem Amarelo” e “O Japonês” de Anita Malfatti; “O Homem do Mar” e “Café Turco” de Di Cavalcanti, e “Cabeça Verde” e “Cabeças de Negras” de Vicente do Rego Monteiro.

    A Semana de 22 foi um marco importante para muitos artistas, no decorrer do Século XX, aderirem o modernismo brasileiro e criarem suas artes, em todos os seus estilos, através de uma percepção abrasileirada, mas ser considerado um marco de arte no Brasil só passou a valer, historicamente, a partir da década  de 50, com o início dos primeiros Museus de Arte Moderna no Brasil.


    SUGESTÕES DE PAUTA: reportagem@gruposulnews.com.br

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