Bar-farmácia, oficina culinária, arte e musicoterapia são ferramentas de apoio em tratamento oferecido nos centros de apoio psicossociais municipais de São Paulo

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Projetos visam à reabilitação social, diminuição da ansiedade e o contato com novas experiências de ressignificação 


Um novo mundo com mais cores, novas tintas e perfumes, descoberto por meio da música, arte e gastronomia. Essa é a proposta de grupos de apoio a dependentes químicos, com ou sem danos psicossociais, criados na Secretaria Municipal da Saúde (SMS) por meio dos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) em São Paulo, que já atenderam 30.743 usuários do serviço de janeiro a setembro de 2022, entre adultos e crianças.  

O universo a ser explorado de um dos grupos de apoio intitulado Barmácia é variado. Com muitas frutas, um pouco de refrigerante, água de coco, groselha e até gelo seco, os drinks vão sendo criados. No Caps AD III Jardim Ângela, na zona sul da capital, esse projeto, que existe desde junho de 2020, visa funcionar como estratégia de redução de danos para dependentes químicos e com prejuízos psicossociais. “O nome do grupo foi criado em alusão ao ambiente descontraído do bar e à parte racional e terapêutica da farmácia. Ele tem como objetivo ensinar, capacitar e empoderar os participantes para que descubram o universo dos drinks sem álcool, ou seja, uma ressignificação da diversão”, explica Paulo Rogerio Gomes, farmacêutico e idealizador do projeto.  

É o caso de Abnaldo Januário Marinho da Silva, 48 anos, gráfico, morador do Jardim Ângela e paciente do serviço desde 2013. Ele procurou ajuda no Caps AD III por causa do abuso no uso de álcool. “Meu pai bebia muito, aos 14 anos eu ia para os bares com ele, depois com amigos, até um dia perceber que precisava de ajuda. Sempre participo de oficinas e grupos e identifiquei no Barmácia uma maneira de voltar ao convívio social. Aqui a gente vê que existe o outro lado, que dá para se divertir sem tomar álcool, com drinks diferentes. Parece pouco, mas essa iniciativa é muito importante para gente, é inclusiva”, conta.  

Quem se aproxima da cozinha do Caps AD IV Redenção, na região central, às quintas-feiras, já fica com água na boca. Isso porque, o aroma dos pratos que estão sendo feitos pelos pacientes que participam da oficina de culinária invade o local. Sob monitoramento do oficineiro Daniel Oliveira, a cada semana, o grupo cuja oficina integra o projeto terapêutico singular (PTS) recebe uma receita diferente levada pela nutricionista. “Todos trabalham de forma colaborativa, cada um fazendo uma parte do processo. Em uma linha de produção, eles se dividem entre cortar os alimentos, untar as formas e bater a massa. Aqui, conseguimos promover a reabilitação social, o trabalho em grupo, a importância do tempo, da espera e do controle da ansiedade. Nós temos muitos talentos que estavam deitados nas calçadas, invisíveis, e despertar essas aptidões pode ajudá-los a voltar para a sociedade tão bons como são”, pontua Daniel. 

Na zona norte da cidade, o Caps AD III Santana, entre outras atividades, conta com dois grupos de apoio baseados em arteterapia e musicalidade. O primeiro existe há 12 anos e acolhe dez participantes em cada uma das duas sessões semanais, às segundas e quartas-feiras. Por meio de telas, tintas e pincéis, os participantes escolhem quais imagens ou desenhos são significativos para cada um naquele momento e como querem se expressar. Além de ensinar a parte técnica, o ponto central da oficina é usar a projeção da tinta e tela como tema de conversas e conseguir entender por que o empenho foi tão significativo. 

De acordo com Felipe Damasceno, gerente da unidade, o mesmo acontece na oficina de musicalidade, que recebe em média 15 pessoas por semana. “Começamos a fazer para descontrair e notamos uma potência terapêutica grande para amenizar a ansiedade dos pacientes, a experimentação de um outro tipo de prazer que não o vício. Toda sexta-feira de manhã eles rememoram músicas que cantavam com a família, resgatam laços, histórias e até um vínculo que se perdeu. Apostamos nesses espaços que propiciam a arte e que por meio dessas expressões artísticas eles podem acessar sentimentos que algumas vezes não fluem só pela conversa com o terapeuta, por exemplo”, aponta. Os grupos de arteterapia e musicoterapia são abertos para qualquer pessoa que estiver em acompanhamento na unidade.  

Os Centros de Atenção Psicossocial  

Ao todo, a cidade conta com 102 Caps, sendo eles 35 AD, 33 infantojuvenis (IJ) e 34 adultos. Destes, 45 funcionam como Caps III, com acolhimento integral e funcionamento 24 horas, e um como Caps IV, que funciona 24h e possibilidade de acolhimento integral, exclusivo para a cena de uso. A região central conta com sete Caps: Caps AD III Centro, Caps AD III Complexo Prates, Caps AD IV Redenção, Caps III Adulto Sé, Caps IJ III Sé, Caps AD III Armênia e o Caps AD III Boracea.


SUGESTÕES DE PAUTA: reportagem@gruposulnews.com.br

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