Arquivo: entrevista com Julio Guerra | Iniciada a Montagem do Monumento a Borba Gato

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Em 24 de agosto de 1962, foi publicada na Gazeta de Santo Amaro a reportagem Iniciada a Montagem do Monumento a Borba Gato, uma entrevista com o artista Julio Guerra contanto sobre a produção de sua obra; reportagem de Sauro Bastos e fotos de Ronaldo (Studio Amaro)


Um homem de estatura mediana e de talento artístico criador, tornou-se alvo da curiosidade dos que passam pela sua residência, a Av. João Dias, onde, no quintal, é avistada uma figura gigantesca, esculpida em mármore e granito. Ficam todos a admirar o vigor e o tamanho da peça, como que assombrados pela magnitude da obra. O artista é Julio Guerra, cujas mãos lidam com a arte de esculpir. Santamarense, o consagrado artista é uma das glórias de São Paulo. À figura de Borba Gato Julio Guerra deu novo aspecto, graças à sua original inspiração criadora. Imprimiu com mais acentuada força a marca de suas mãos. Do quintal de sua casa, a gigantesca obra está sendo removida, aos poucos, para o seu pedestal na bifurcação das avenidas João Dias e Adolfo Pinheiro. Conversando com o repórter, Julio Guerra vai desfilando a história da construção do monumento. É com carinho que explica o trabalho que teve com a obra. O seu contagiante entusiasmo extravasa-se, quando fala da nova obra. Nesse trabalho Julio Guerra fugiu da traição, entregando-se a novos rumos onde a sua ânsia criadora configurou-se nessa exuberância que é o monumento, imprimindo vida numa figura bem contornada, onde os detalhes impressionam e o conjunto arrebata.

PRIMO POBRE

Rebelando-se contra as linhas tradicionais da escultura, onde o bronze é a nota predominante, Julio Guerra, explica:

– Monumento é coisa fora de moda. Além de sua eterna repetição, na maioria das vezes, não passa aos transeuntes superapressados de hoje de um amontoado de bronze e granito que ocupa espaço. Convencionou-se usar o bronze e o granito, dois materiais não muito harmoniosos entre si, somente pela sua durabilidade, que no final também se tornam em ruínas, como a delicada terracota, e só daí é que vão ser julgadas, pois a praça aceita tudo. Sempre tive uma certa ojeriza por monumentos. Geralmente possuem aspectos fúnebres e fazem lembrar campos santos, talvez pela aplicação excessiva desses materiais, em setores diferentes, sem atrativo algum. Ao contrário da pintura que, sustentada pela cor, procura novas formas, a escultura é hoje o seu “parente pobre”. Não se encontrou ainda a si mesma, e o que se faz como novidade não passa de uma substituição de complementos decorativos.

A FORMA E O ARTISTA

– “Isolados, os monumentos, quase nada representam, por se confundirem facilmente com peças funcionais. Se exagerados na sua forma, caem no perigo de confundirem-se com espantalho ou então voltar ao arcaico, e primário. Se fosse para fazer esta estátua em bronze, eu desistiria. Seria uma estátua a mais na praça. Para não repetir isso, e para não usar os “funerários” matérias, granito e bronze juntos, procurei com os recursos do concreto armado, realizar uma escultura policromada, com materiais novos e definitivos, usando desse modo um recurso que tantas vezes nos faz tolerar certas pinturas: a eterna e sugestiva cor. Isto de policromar estátuas já vem desde os egípcios até Donatelo.

Coloriam-se as peças mas este colorido desaparecia com o tempo. Portanto, a experiência e a vontade de colorir estátuas já é coisa velha, apenas não era realizável definitivamente por não existir o concreto armado”.

A IDEIA DO MONUMENTO

A ideia de se construir uma estátua a Borba Gato e mural descritivo da história de Santo Amaro, surgiu em 1948, quando vieram para Santo Amaro, como subprefeito o engenheiro, respectivamente, o Dr. Alfredo Giglio e Dr. Julio Cesar Lacreta; pediram ao escultor Julio Guerra que fizesse um estudo sobre o local principal da entrada da cidade de Santo Amaro. Esse local compreendia o triângulo formado pela bifurcação das avenidas João Dias e Adolfo Pinheiro, tendo como base a rua da Paz, que, naquela época, estava completamente abandonada, nem mesmo cerca possuindo. De há muito esse local já estava destinado a ser uma grande praça.

O PROJETO

– “Projetei um mural semiconcavo – continua Julio Guerra – de 20 metros de comprimento por 5 de altura, tendo atrás, como moldura, um grupo de árvores que servia também para esconder os terrenos do D.A.E.; logo em frente ao mural, em miniatura, a represa Billings; mais adiante a estátua de Borba Gato, de 10 metros e em seguida, a represa Guarapiranga, servindo estes lagos também como roteiros turísticos. Mas, com a saída destes meus amigos, Dr. Alfredo Giglio e Dr. Julio Cesar Lacreta, de Santo Amaro, nada ficou resolvido, aproveitado eu a maqueta para expor no Salão Oficial de Belas Artes, onde obteve o 1º prêmio “Governo do Estado”, quando, então, o vereador José Diniz se interessou pelo mesmo, propondo à Câmara a sua realização. Quando o processo foi a plenário, foi lembrado que o terreno não pertencia à Prefeitura, era necessária sua desapropriação, já com pareceres favoráveis dos engenheiros de Santo Amaro. Isto só fez avolumar o processo. O terreno foi desapropriado, o que determinou o arquivamento do processo, sem esperança alguma de sua execução”.

A ATUAÇÃO DO DEPUTADO SCALAMANDRÉ SOBRINHO

– “Ano mais tarde, o deputado Scalamandré Sobrinho, tomando conhecimento do caso, prometeu-me que mandaria executar o projeto, embora sem os complementos decorativos (por falta de espaço), nem que fosse às custas de suas verbas pessoais. E como prometeu, soube cumprir. Há cinco anos, o Deputado Scalamandré reservava uma parte de sua verba para destinar à construção do mural (já pronto) e da estátua de Borba Gato. A estátua já está pronta; apenas enfrento o processo de colocação que depende de muito cuidado. Mas uma coisa é necessária frisar aqui: nunca o deputado Scalamandré Sobrinho me apressou na conclusão da obra. Acompanhando o trabalho desde seu início, inteirou-se logo da dificuldade de sua execução, o que me permitiu absoluta liberdade, tanto na maneira de executar a modelagem como na escolha do material definitivo”.

COMO É A ESTÁTUA

– “Procurei dar à estátua um cunho diferente daqueles que estamos acostumados a ver, isto é, em lugar do bronze ou granito, usamos pedras e mármores de diversas cores, procurando com estes coloridos naturais, aproximar das cores das indumentárias dos bandeirantes. Este processo, na sua execução, custou o dobro, tanto no preço como no tempo gasto para executá-lo, em relação ao bronze”.

Concluindo, o Sr. Julio Guerra manifestou a sua alegria pelo fato de dentro de pouco tempo estar a sua obra inteiramente pronta. Sua inauguração deverá tornar-se um acontecimento na história de Santo Amaro.

“De qualquer maneira, bem ou mal executado, este trabalho, quando inaugurado, será sempre lembrado como uma homenagem do ilustre deputado Scalamandré Sobrinho aos grandes vultos desta terra, que, mesmo sem autonomia conservará para sempre sua história do povo com mais de 400 anos, o que vem animar ainda mais o desejo dos santamarenses em alcançar o seu grande objetivo, que é a restauração de sua emancipação política e econômica”.


SUGESTÕES DE PAUTA: reportagem@gruposulnews.com.br

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