Os Arquitetos dos Jogos Digitais: desenvolvedores de games alimentam indústria, que continua crescendo mais a cada ano

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Jogos digitais, além de entretenimento, são arte


Muitas pessoas ainda tem dúvidas sobre o desenvolvimento de games, como por exemplo diversos pais que ficam preocupados quando os filhos se interessam pela área, achando que vão entrar só para jogar, porém, um curso de games é feito para aprender a desenvolver jogos, o que exige um grande processo de produção.

Um game designer por exemplo, é o profissional responsável por todo conceito criativo de um jogo, o maestro dos pixels na criação de um mundo digital e capitão de uma equipe composta por programadores, artistas e sonoplastas da área, além de outros dependendo da complexidade do projeto.
Com mais de 10 anos de experiência na área, Luiza Di Pietro, 26 anos, além de game designer, é professora e palestrante da área de games e explica mais sobre o processo de desenvolvimento de jogos, uma das maiores formas de arte e entretenimento da atualidade.

Luiza ingressou no universo nerd aos 6 anos, “estava indo para a cozinha e no caminho vi meu primo de quase 10 anos jogando Super Nintendo, lembro muito perfeitamente da cena, lembro até que ele estava ouvindo Linkin Park. Observando, fui ficando fascinada. Comecei a me aproximar sentando devagarinho na poltrona. Vi que tinha o controle, o fio (que todo mundo tropeçava) e a TV CRT [TV “de tubo”] grandona. Ele estava jogando Super Mario World e eu olhava curiosa pensando ‘você aperta o botão e o boneco anda!? Como isso acontece?’”.

Quando entrou na escola de games era a única mulher do corpo docente, sendo professora e coordenadora, e afirma que isso ajudou a incentivar as meninas que entravam buscando a área de programação, pois muitas tem receio.
Em suas aulas, Luiza criava o cronograma de acordo com a dificuldade de cada um, e assim, ensinava desde o início, “na escola colocávamos por ordem de dificuldade, dos softwares Construct, RPG Maker e depois para a Unity; de software a software aprendendo a base. São etapas que quanto mais se mexe no programa, o usuário vai subindo de nível”.

Programação

A programação é um conjunto de códigos de máquinas feitos para executarem tarefas, por isso, programadores são essenciais nas equipes. Ela é provavelmente a área que mais faz as pessoas entenderem a complexidade da criação de jogos. No geral, é mais voltada para exatas, por usar bastante lógica, mas também contém conceitos de áreas humanas e biológicas, por isso ela dá a sensação de “algo do futuro, promissor”.
Um dos pontos mais importantes no processo de criação é como irá se dar o ponto de início do projeto, por isso essa questão era muito trabalhada com seus alunos.

A maior dificuldade para alunos da área de games é terem confiança de que irão concretizar seus códigos, pois a programação exercita muito a paciência e resiliência, como por exemplo a resolução de bugs (erros de códigos), já que é normal aparecer outros diversas vezes, mas com o tempo entendem que este processo é normal.
Muitos ficam meio pessimistas e Luiza acredita que seu trabalho também foi muito como amiga, mais do que professora, sendo um apoio que também teve quando estava iniciando na área de games, por isso, muitos professores a fizeram ter as qualidades que tem hoje e serviram de inspiraram a ela, “nos trabalhos de fim de semestre era muito mágico quando se admiravam com o próprio projeto, e eu falava ‘viu? Você que fez’”, diz Luiza.

A programação também é muito usada em robótica e uma das coisas mais interessantes de quem atua na área é como a mente humana funciona, pois envolve muito da psicologia e cada indivíduo é muito especial, por isso, quando lecionava nas aulas de robótica, Luiza afirma que sempre surgiam ideias legais em cada projeto, como por exemplo um robô que poderia ir até a pessoa em caso de acidentes domésticos. “Acho o máximo a visão deles de futuro, de fazer algo para o mundo, ajudar as pessoas que estão por vir e o que eles podem lançar, acho que eles têm muita visão de construir um mundo melhor com o conhecimento deles. Nos jogos acho muito particular suas ideias, e acho que enquanto não têm uma cobrança da indústria, têm mais tempo e liberdade de fazerem os jogos e projetos que querem exclusivamente”, afirma Luiza.

Rotina de trabalho

No início do projeto de um game, há todo um esquema de pesquisa, então, quando se tem a parte de ideação a partir dela surge o brainstorm (conjunto de várias ideias). Junto ao diretor ou produtor, vem a seleção de ideias, verificando se são boas, se podem ser simplificadas, alteradas ou complementadas. Após elenca-las, é iniciada a produção.
O game designer é o profissional responsável pela grande maioria das ideias – é normal outras pessoas do time também participarem, mas é uma função voltada ao game designer -, muitas são descartadas e outras revividas, é um ciclo, e é positivo, pois se ela é confirmada para ser inclusa, significa que realmente é boa. Também é comum ficar criticando suas próprias ideias.
Quando são jogos relacionados a coisas que estão em alta – o que é muito comum -, é importante acertar bem o dia e horário para não perderem o timing do tema. De maneira geral, a empresa verifica quantos dias leva em média para publicar e enviam o projeto um tempo antes para poderem avalia-lo e verificar se não há algo a ser corrigido, para que no dia programado ele esteja disponível.

Ao colocar um jogo na loja, nem sempre ele está totalmente completo, e então vários testes e métricas são feitas para realização de atualizações, correção de possíveis bugs ou realização de aprimoramentos.
As métricas também são utilizadas pelas “publishers” (publicadoras) para analisarem a possibilidade de publicação. Quantas pessoas o baixaram e continuaram jogando, o rendimento do jogo em geral, como a pessoa conheceu, se continuou no jogo, se baixou mas não abriu, são exemplos de tópicos verificados por elas. Caso não aceitem, ou tira-se o jogo de distribuição ou o melhoram, mantendo com anúncios e outros tipos de marketing (na maioria das vezes, o produtor cuida do marketing). Quando tudo está ok, o jogo permanece nas lojas virtuais, criando renda enquanto outros são produzidos.

“Um professor meu dizia que o game design é um plano maligno, porque você vai influenciando a pessoa. Tudo tem um motivo dentro do jogo, as ações são esperadas”, conta Luiza, que também afirma ser muito importante socializar e ter um tempo de ócio criativo.

Grandes empresas costumam ter áreas mais setorizadas dentro da produção, como interface, arte, sonorização, modelagem 3D e programação, pois um jogo é dividido em várias áreas. No Brasil, em geral, além dos profissionais terem conhecimentos específicos em cada área, também possuem ao menos o mínimo de conhecimento em quase todas as outras, pois costumam a trabalhar em mais de uma área, principalmente em empresas “indies” (independentes).

Um “level” de cada vez

Muitos interessados na área acham que já terão a chance de realizar de primeira um jogo “triplo A” (grandes jogos com alto orçamento), em palestras para alunos do ensino médio interessados na área, é muito comum perguntarem “qual jogo famoso você trabalhou?”, “não que não possa acontecer, mas elas tem a ilusão de que vão entrar para fazer “um novo GTA”, dizendo que querem entrar só com esse objetivo, mas é preciso ter paciência. Para ser game designer, é importante a pessoa estar disposta a conhecer muitos jogos – até mesmo os que não gosta tanto -, estar aberto as referências, estudar e buscar aprender sobre tudo”, diz Luiza.

Mercado

Muitos dizem só ser possível trabalhar com games no exterior, o que não é verdade. Hoje em dia é muito comum os profissionais entrarem em empresas indie, que é o maior mercado para quem está começando, e assim, crescerem na área (o mercado mobile por exemplo está em alta e contém muitas empresas indies). Para a indústria de games em geral, é preciso estar atento e ter portfólio. Participar das ‘Game Jams’ por exemplo (eventos de criação rápida de jogos), conhecer pessoas da área, utilizar o LinkedIn, ver canais de jogos no Discord (plataforma de conversação online) e ouvir profissionais da área, são boas maneiras de criar portifólio e estar atento ao mercado.

“A meu ver o Brasil tem muito mercado mobile. A questão que mais se discute no meio é o teto do salário e benefícios. Temos uma coisa muito comum no Brasil de PJ, ou seja, você ter sua microempresa, fazer freelancer, ou até ter um trabalho fixo como pessoa jurídica. O bom disso é que como as coisas mudam rapidamente, você também consegue mudar muito mais rápido, mas por outro lado, a contratação CLT é algo mais seguro, e são poucas empresas [de jogos] que fazem isso no Brasil. Tem muita gente que trabalha do Brasil para empresas do exterior, tendo como vantagem a remuneração em dólar”, diz Luiza.

Há empresas que trabalham com publishers e são internacionais, produzindo no Brasil de forma terceirizada. A maioria contrata empresas brasileiras que produzem os jogos (muitos deles mobiles) e publicam como marca estrangeira.
Ainda não há como dizer se o mercado vai fazer mais terceirizações ou se teremos mais empresas brasileiras. Existem grandes empresas brasileiras, no entanto, poucas se sustentam com jogos além dos indies.

Como exemplo, atualmente Luiza trabalha em uma grande desenvolvedora nacional, e devido a pandemia, passou a trabalhar em regime home office, onde permanece até hoje. Para quem tem receio de ingressar na área, ela deixa um recado: “Uma frase que gosto muito é ‘quando pensar em desistir, lembre porque começou’, então lembro da Luiza de 6 anos jogando Super Nintendo e penso ‘ela estaria muito feliz de saber que se tornaria desenvolvedora de jogos, acho que ela nem imaginaria isso’”.


SUGESTÕES DE PAUTA: reportagem@gruposulnews.com.br

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