Por Débora Fraga
Crescemos ouvindo que nós éramos a salvação do planeta, no entanto, com o passar dos anos, fomos promovidos a adultos que creditam toda a esperança na nova geração. Acontece, que o presente é o futuro que nossos antepassados tanto nos prometeram, e o questionamento que fica é: qual futuro estamos construindo no presente para as novas gerações, além de repassar toda a esperança que, um dia, foi depositada em nós? Alguns medos, eram a realidade em diversos locais do Brasil, tornaram-se cotidiano no estado de São Paulo. A assustadora manchete dos jornais anunciava que o pior estava por vir em 2014 “Crise Hídrica devido ao baixo nível do Sistema Cantareira e de outros
mananciais”. Atualmente, em 2026, a escassez hídrica é uma constante. Apesar de todo o sofrimento e angústia, nenhuma medida ambiental efetiva foi tomada para proteção dos recursos hídricos (bem da União e do Estado), tampouco foi criado um protocolo de crise. Segundo o INMET, no ano de 2025, o estado de São Paulo recebeu a maior onda de calor registrada, isto é, a temperatura diária esteve 5ºC acima da média climática por 3 dias consecutivos. Apesar dos efeitos terem chegado apenas no ano passado, as ações responsáveis por estes acontecimentos cada vez mais presentes são resultado de anos de desmatamento, emissão de CO2, Metano e outros agravantes que intensificam o processo antropogênico de aquecimento do planeta, uma vez que os gases do efeito estufa se acumulam em excesso, prejudicando a regulação climática natural do planeta.
O Brasil é um país de extensão continental em que todos os biomas estão interligados, estabelecendo relação direta de chuva, ondas de calor, aumento de temperatura e frente frias com os acontecimentos das demais regiões do país. Segundo o MapBiomas, em 2024, pela primeira vez, o Relatório Anual do Desmatamento no Brasil registrou, durante o período de 6 anos, queda na perda de cobertura vegetal nativa em todos os biomas do país. Sendo assim, o houve diminuição de 32,4%. Os dados são passíveis de comemoração, mas a realidade no Norte do país é bem preocupante, ainda mais quando a maior floresta tropical do mundo está sofrendo as consequências de cerca de 2 milhões de hectares desmatados no período de 2019-2024. No entanto, o Cerrado, especificamente a região MaToPiBa, ultrapassou a Amazônia e disparou no ranking de bioma mais desmatado do país, sendo 2024 o ano recorde. Apesar desta triste realidade,ainda há uma gota de esperança, estudos demonstram que os povos originários, quilombolas e as Unidades de Conservação são os fatores mais importantes para preservação e conservação do meio ambiente, garantindo qualidade de vida para todo um país que depende dos serviços prestados pela natureza para sobreviver.
É difícil olhar para os números e imaginar um futuro em que os jovens possam viver saudáveis, uma vez que a maior garantia de qualidade de vida está historicamente ameaçada e destruída. No entanto, uma garantia já temos: os jovens que nasceram após os anos 2000 sofrerão com o maior aumento de temperatura já vivido pela humanidade no menor período já registrado – cerca de 1ºC – alcançando o aumento de 2º C na média mundial, enquanto a geração nascida nos anos 1970 e 1980 sofrem com a temida chegada da temperatura ao 1,5ºC limite, previsto pelo IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change), porém em uma escala temporal maior, pois o início deste processo é marcado pela Segunda Revolução Indústria.
Sem alarmismo e desânimo, é hora de colocarmos a cabeça para pensar e prepararmos nossos jovens para um futuro muito diferente do que nos foi prometido, mas com a confiança e garantia que o avanço tecnológico e educacional evoluiu e desta forma poderemos garantir a nossa existência como espécie, em conjunto com as demais. Por isso, nesta semana das Crianças, não repasse para o jovem da sua vida o peso de descobrir maneiras de salvar o mundo sozinho, dê a mão a ele e criem uma rede conjunta. Pois, salvar o mundo não é dever de uma sociedade ou geração específica: é dever de todos nós, e o progresso só existe quando nos apoiamos e construímos juntos uma sociedade mais justa, plural e unida. Afinal, o presente é o futuro que deixaremos para as nossas crianças.

Débora Fraga é bióloga e engenheira ambiental
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